sábado, junho 18, 2005

A prisão do tempo




Todos os dias quando acordo não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo, temos todo o tempo do mundo
Todos os dias antes de dormir lembro e esqueço como foi o dia
Sempre em frente, não temos tempo a perder ”
(Tempo Perdido, Renato Russo)


“Don’t go away, say what you saybut say that you’ll stay,
forever and a day, in the time of my life
‘Cos a need more time just to make things right”
(Don’t Go Away, Oasis)

“Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou o cara cansado de correr na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára”
(O Tempo Não Pára, Arnaldo Brandão e Cazuza)


Diariamente tenho a sensação de estar aprisionada na escravidão contemporânea que é o tempo, e em suas manifestações mais claras o relógio e a agenda. Todos dias acordo em tal horário, tomo café no mesmo horário, almoço mesmo sem fome porque está na hora, etc...Todo dia.... Todo dia....

O que me faz lembrar muito do filme “Tempos Modernos” do Charles Chaplin. Pois este mostra mesmo que de forma cômica a crítica social relacionada a sujeição do homem contemporâneo a escravidão do relógio, com seus horários todos pré-estabelecidos, com seu almoço ou seu jantar atrelados a determinados momentos específicos do dia, mesmo que em alguns dias, não estejamos com fome; com seu lazer estipulado para os finais de semana ou para as folgas alternadas das escalas e turnos estabelecidos pelas empresas; com suas férias tendo que ser vividas no prazo que for dado pelas companhias e assim vai, com os ponteiros oprimindo a espontaneidade e a criatividade dos homens.

Isso enlouquece qualquer um, e alguns dias efetivamente o consegue.

É tão certo que essa automatização e cobrança do cotidiano impera sob nós como uma escravidão que a primeira coisa que faço quando chego em casa é tirar o relógio, é como um símbolo da prisão e da opressão.

Outra faceta da prisão do tempo é a sensação de que estamos sempre perdendo o nosso tempo com essas obrigações do cotidiano, pois passamos muitos anos fazendo o que é esperado que façamos. Um dia a casa cai e percebemos que não nos resta tanto tempo. Em seguida perdemos mais tempo lamentando o tempo que já se passou e como queríamos mais tempo para fazer as coisas certas e as coisas darem certas, além é claro de mais tempo para conseguir realizar os nossos sonhos.

Mas o tempo não pára. Dessa forma enquanto somos jovens reclamamos que não realizamos o que gostaríamos, mas temos aquela certeza que ainda há muito tempo, na sensação de que sempre existirá muito tempo até o futuro chegar. Porém, tenho certeza que nossos pais pensaram a mesma coisa e um dia ao se olharem no espelho, como Drummond tão bem escreveu, não reconheceram estes velhos que miravam os seus olhos.

"Enfim... um dia descobrimos que apesar de viver quase um século esse tempo todo não é suficiente para realizarmos todos os nossos sonhos, para dizer tudo o que tem que ser dito...O jeito é: ou nos conformamos com a falta de algumas coisas na nossa vida ou lutamos para realizar todas as nossas loucuras..." (Mário Quintana)

3 comentários:

fernando mendonça disse...

Oi, Amanda. Excelente o seu texto, e todas as citações são muito legais também.
Eu tenho uma teoria sobre essa questão do tempo nos dias de hoje, mas um dia te conto pessoalmente, não pode ser tornada pública ainda (:oP)
Outra coisa que eu queria dizer é que essa sensação do tempo passando é tão inevitável e tão ligada à consciência da mortalidade, na verdade essencial pra que a gente curta a vida, carpe diem.
Mas estranhamente a gente pode acabar em uma neurose de sistematizar cada segundo, tipo encaixar tudo dentro da agenda e do relógio, e isso acaba por ser o oposto de aproveitar cada segundo.

Só queria também deixar esse poema que li pela primeira vez em 99, e é um pouco uma incitação a "lutar para realizarmos todas as nossas loucuras" do Quinta que vc cita no texto, um libelo contra o comodismo. um bj

“Do Not Go Gentle into That Good Night” (Dylan Thomas)

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.

Rage, rage against the dying of the light.

fernando mendonça disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
Amanda disse...

Fer, como sempre vc escreve só as coisas certas, as vezes tenho a impressão que vc bate papos com o meu alter-ego.